
Ana Rita
Baptista
Médica
Veterinária
Colaboradora
Veterinária das Rações para Animais de Companhia

Hoje é
mais fácil do que nunca oferecer uma alimentação saudável e equilibrada aos
cães. A alimentação seca com ingredientes de boa qualidade, vulgarmente
conhecida como ração, está hoje maioritariamente aceite como a melhor opção em
nutrição canina – a mais nutritiva, a mais prática e económica, a mais
vantajosa para a higiene bucodentária... Um rol de vantagens que já todos os
aficcionados da canicultura e amantes da raça bulldog devem conhecer.
Antes de vos falar acerca do maneio alimentar, da
alimentação equilibrada e das doenças que podem advir de uma dieta errada ou,
no sentido contrário, de que modo dietas correctas se podem tornar terapêuticas
em certas doenças (por exemplo, através das dietas comerciais) ¾ assuntos que ficarão para
próximos artigos ¾
gostaria que conhecessem melhor os nutrientes e o aparelho digestivo: os
grandes intervenientes na Nutrição Canina.
O processo de digestão tem
início, obviamente, com o acto de “comer”. Os movimentos dos lábios, língua,
boca e faringe apreendem o alimento e empurram-no para diante no Sistema
Gastro-Intestinal (Sistema GI). A mastigação é o 1º acto digestivo.
Quebra o alimento em pequenas porções que o permitem passar pelo esófago,
mistura e lubrifica-o com a saliva.
A deglutição do alimento
mastigado empurra-o para o Esófago.
Voluntariamente o animal empurra a comida com a língua para a orofaringe, que
possui terminações nervosas que detectam a presença do alimento e accionam o
reflexo involuntário da deglutição, com fecho da epiglote para que não haja passagem
incorrecta de alimento para a traqueia e daí para o aparelho respiratório.
O esófago transfere
rapidamente o bolo alimentar mastigado da faringe para o Estômago,
através de movimentos de propulsão ¾ peristaltismo
ou movimentos peristálticos. Para o leitor mais facilmente visualizar de
que modo estes movimentos involuntários ocorrem, imagine-se empurrando material
para fora de uma mangueira de borracha apertando-a circularmente com os dedos.
Quando o bolo alimentar
atinge a entrada do estômago ¾
zona denominada cardia ¾,
(que em condições normais se encontra fechada) esta relaxa e permite a passagem
do alimento. Esta entrada é um anel muscular denominado esfíncter.
Encontramos diversas entradas e saídas semelhantes, também denominadas esfíncteres,
noutros órgãos do corpo do cão (um exemplo ¾
o esfíncter anal). É importantíssimo que a entrada do estômago permaneça
fechada quando não está a ocorrer deglutição ¾
a mucosa do esófago não está preparada para resistir à acidez do conteúdo do
estômago.
Uma vez dentro do
estômago, o alimento toma consistência mais líquida, para que possa ser
processado pelas porções posteriores do sistema GI. A função primária do
estômago é fornecer alimento para o intestino delgado, que é a porção do
sistema GI que se lhe segue. O estômago fá-lo de duas maneiras: (1) diminuindo
a consistência do alimento (tornando-o mais líquido) e triturando as partículas
de modo a que possam mais facilmente processadas posteriormente; (2) servindo
de reservatório e assim controlar a velocidade de libertação de alimento para o
intestino delgado ¾
totalmente dilatado, o estômago pode ocupar metade da cavidade abdominal! O
alimento líquido passa rapidamente pelo estômago; o alimento sólido é esvaziado
mais lentamente, e o tempo que ele permanece no estômago é proporcional à sua
consistência e ao seu teor em gordura. As refeições são esvaziadas do estômago
no máximo em 3 horas.
O interior do estômago
contém glândulas que secretam ácido clorídrico ¾
que baixa o pH do estômago para valores entre 1 e 2 ¾
e duas enzimas digestivas ¾
a pepsina e a quimosina. A expectativa de ingestão de alimento e
a sua entrada no estômago estimula a actividade destas glândulas e os
movimentos gástricos. As secreções gástricas iniciam o processo de digestão das
Proteínas, processo que continuará posteriormente no intestino.
No intervalo entre as
refeições, o material alimentar não digerível é totalmente eliminado do
estômago. O piloro (esfíncter inferior do estômago) relaxa e o
conteúdo gástrico segue para o Duodeno ¾
primeira porção do Intestino Delgado
(ID).
É no ID que ocorrem os
principais fenómenos de Digestão (processo de “quebra” de nutrientes
complexos em moléculas simples) e a Absorção das moléculas resultantes
da digestão para a corrente sanguínea. Denomina-se Assimilação
todo o processo ¾ Digestão e Absorção. Em Medicina Veterinária é muito frequente a
ocorrência de distúrbios da assimilação de nutrientes, seja por deficiente
digestão ou má absorção. Falaremos deles posteriormente noutro artigo.
O processo de
digestão envolve não só a quebra física das partículas alimentares (que começa
com a mastigação, e se completa no estômago, antes de o alimento chegar ao ID),
mas também uma quebra química sob acção de enzimas digestivas (2 delas já
mencionadas a propósito da digestão das proteínas no estômago). Esta digestão
química tem como resultado a redução de nutrientes complexos em moléculas mais
simples.
Falávamos há pouco das Proteínas, cuja digestão se iniciava no
estômago. As proteínas são grandes moléculas complexas compostas de longas
cadeias de Aminoácidos. Existem 2 tipos de aminoácidos ¾ Não Essenciais (o organismo animal consegue sintetizá-los sem
serem obrigatoriamente fornecidos na dieta) e Essenciais (o organismo animal
não os consegue sintetizar em quantidades suficientes, pelo que têm que ser
obrigatoriamente providenciados pela alimentação). Proteínas de origem
animal possuem de um modo geral um melhor conteúdo em aminoácidos, com uma
maior proporção de aminoácidos essenciais e com maior digestibilidade.
As Proteínas são
constituintes essenciais das células onde exercem importantes funções na
regulação do metabolismo celular e funções estruturais, sobretudo na membrana
das células e nas fibras musculares. São assim importantíssimas na manutenção e
promoção da boa saúde da pele e pêlo, mucosas e secreções. O animal tem maior
necessidade de Proteínas na alimentação durante períodos específicos da sua
vida ¾ crescimento,
gestação e lactação e reparação de tecidos danificados (feridas, queimaduras,
fracturas, etc.).
É contudo necessário não cometer grandes exageros na quantidade de
proteína incluída na dieta do animal em crescimento, uma vez que a quantidade
em excesso é metabolizada pelo fígado em energia e posteriormente em tecido
adiposo, aumentando a velocidade de crescimento (com os consequentes possíveis
distúrbios esqueléticos) e provocando excesso de peso.
A situação contrária ¾ deficiência proteíca ¾ pode resultar da ingestão de dietas
com baixo nível de proteína ou com proteína de baixo valor biológico (por
exemplo, com deficiência em determinado aminoácido). São sinais de deficiência
proteica uma pele e pêlo em más condições, fraco e sem brilho; crescimento
lento ou perda de peso e massa muscular; perda de apetite; edemas (em casos
muito graves).
A digestão das proteínas inicia-se no estômago pela acção do ácido
clorídrico e das enzimas que falámos anteriormente e continua no intestino
delgado pela acção de enzimas secretadas pelo Pâncreas
para o interior do ID. Os produtos finais da digestão das Proteínas são
aminoácidos livres e cadeias simples de 2 ou 3 aminoácidos, que passam
posteriormente a superfície do intestino para a circulação sanguínea
(Absorção).
Lípidos & Vitaminas
Lipossolúveis
Outro nutriente muito importante que sofre digestão no ID é a
Gordura. Gorduras ou Lípidos são inicialmente digeridas no Duodeno
(primeira porção do ID), onde é libertada a bílis produzida no fígado e
armazenada na vesícula biliar. A bílis reduz a gordura a gotículas emulsificadas
(“dissolvidas” no conteúdo aquoso do ID). No Jejuno (segunda porção do
ID) ocorre digestão química pela acção das enzimas do pâncreas lipase e co-lipase
e absorção para a circulação sanguínea através dos vasos linfáticos
intestinais.
O lípido dietético primário é
o triglicérido (combinação de 3 ácidos gordos com 1 glicerol). A gordura
fornecida pela alimentação consiste sobretudo em misturas de triglicéridos, e a
sua qualidade pode ser determinada em grande parte pelos ácidos gordos que a
compõem (saturados, poliinsaturados, ou não saturados). Outros lípidos
dietéticos importantes incluem o colesterol (origem animal) e os fosfolípidos
(de origem animal ou vegetal).
A gordura tem variadas
funções. (1) É o nutriente com maior concentração energética (outros nutrientes
que também fornecem energia, mas em menor concentração: proteínas e hidratos de
carbono). Por essa razão, se for providenciado em excesso conduz à obesidade e
a outras doenças, de que falaremos no próximo artigo. (2) Fornece ácidos gordos,
importantes na função hepática e na reprodução, assim como na manutenção de uma
pele e pêlo saudáveis. Actualmente existe apenas um ácido gordo essencial
reconhecido no cão – o ácido linoleíco (poliinsaturado), a partir do qual o seu
organismo consegue sintetizar outros. (3) Fornece ao organismo as vitaminas
lipossolúveis: Vit A (importante para a visão, para um bom desenvolvimento dos
ossos, e manutenção de pele, pêlo e mucosas saudáveis), Vit D (importante para
a absorção intestinal de cálcio e regulação do seu metabolismo, logo,
importante no desenvolvimento do esqueleto), Vit E (protege as células do
envelhecimento e dano oxidativo) e Vit K (importante para a coagulação do
sangue). (4) Oferece óptima palatabilidade e textura aos alimentos, pelo que é utilizada
com esses objectivos no fabrico de rações para animais.
Os
Hidratos de carbono ou Carbohidratos providenciam energia, e podem, em excesso,
ser convertidos em tecido adiposo, a maneira que a natureza criou de armazenar energia
para ser armazenada em alturas de fartura e utilizada em circunstâncias de
escassez.
Os
carbohidratos da dieta provêm primariamente de fontes vegetais. Incluem (1) os
açucares simples ou monossacarídeos (Glucose, Galactose, Frutose) e os
açucares complexos (di, tri ou oligossacarídeos,
dependendo do número de subunidades repetidas de açúcar simples ¾ 2, 3 ou mais, respectivamente); os dissacarídeos
mais importantes na dieta do cão são a lactose, de origem animal (açúcar do
leite = glicose + galactose) e a sacarose (açúcar comum = glicose + frutose); (2) os amidos, carbohidratos
complexos; (3) fibras, partes estruturais das plantas, que o cão não consegue
digerir, mas que exercem acção benéfica sobre uma série de processos
digestivos. Falaremos delas a esse propósito mais adiante.
A maior
parte dos cães gosta particularmente do sabor dos alimentos contendo açúcar,
mas o seu valor é muito limitado, como veremos adiante, e pode mesmo ser
prejudicial no processo digestivo. Já veremos como...
A
digestão dos carbohidratos processa-se no ID. Os di, tri e oligossacarídeos,
relativamente curtos, são digeridos por enzimas próprias da mucosa intestinal.
A denominação das enzimas envolvidas faz-se de acordo com os açucares que
digerem: por exemplo, a enzima lactase digere o açúcar lactose, a sacarase
digere a sacarose, e assim por diante. O valor destes dois dissacarídeos é
muito limitado pela quantidade das respectivas enzimas – a actividade da
lactase, sobretudo, diminui muitíssimo com a idade, pelo que o consumo de leite
ou outros alimentos contendo lactose, pode provocar diarreia por má digestão. O
consumo de iogurte e de queijo fresco é permitido, uma vez que se tratam de
produtos lácteos sem lactose.
O amido,
que é mais complexo, sofre primeiro digestão química pela acção da enzima
pancreática a
amilase, que o quebra em muitos di, tri e
oligossacarídeos, que são então digeridos pelas enzimas da mucosa intestinal. O
resultado dessa digestão na mucosa intestinal é uma grande quantidade de
monossacarídeos, que já conseguem então passar a barreira intestinal de modo a
serem absorvidos para a circulação sanguínea.
Todos os
animais necessitam fisiologicamente de carbohidratos, mas desde que a dieta
contenha suficientes aminoácidos e lípidos, a partir dos quais o organismo
consegue sintetizar a glucose de que necessita, não há necessidade suprema de
os incluir na dieta. Mesmo durante estádios como gestação ou lactação, em que
as necessidades de hidratos de carbono são maiores, não há necessidade absoluta
de os incluir na dieta, desde que estejam incluidos os seus precursores, ou
seja, as substâncias a partir das quais os seus organismos conseguem sintetizar
carbohidratos, principalmente aminoácidos gluconeogénicos.
O Intestino Grosso (IG) segue-se anatomicamente
ao ID. Inicia-se com um esfíncter, o esfíncter íleo-cecal, ou seja, o
esfíncter que permite a saída do conteúdo alimentar do Íleo (última
porção do ID) e a entrada no Ceco (primeira porção do IG). O IG
do cão é constituído por um Ceco curto e bastante simples e pelo Cólon,
também bastante simples em comparação com outras espécies animais. O material
que entra no IG tem ainda consistência líquida. No IG ele é homogeneizado e
muita da água e substâncias minerais que ainda contém são aqui absorvidas, de
modo que o material vai adquirindo conteúdo semi-sólido, até se transformar em
fezes, à medida que progride. Ocorre também fermentação dos produtos não
digeridos anteriormente no ID pela flora microbiana intestinal, principalmente
das Fibras moderadamente
fermenscíveis. As que não o são de todo, são contudo benéficas: moldam
as fezes, regulam os movimentos intestinais e ajudam a prevenir tanto a
obstipação como a diarreia. A microflora intestinal do cão é muito sensível, e
não tolera facilmente alterações bruscas de alimentação. Falaremos também deste
facto no próximo artigo.
Quando há passagem de
fezes para o Recto (porção
terminal do aparelho digestivo) dá-se o relaxamento do Ânus e a
defecção. Em animais não treinados para reter as fezes ou em cachorrinhos que
ainda não o aprenderam a fazer, a defecção constitui um acto reflexo, não
dependente da vontade. Em animais que foram ensinados a não fazer as suas fezes
em casa, este acto reflexo consegue ser bloqueado pela sua vontade, através da
constrição voluntária do esfíncter anal. Quando isto acontece, as
fezes permanecem no recto, até que nova chegada de material faça desencadear
novamente a urgência em defecar. Para ensinar o cão a voluntariamente evitar as
defecções é importantíssimo não o castigar em caso algum se durante o período
de aprendizagem acontecer ainda algum incidente desagradável. É perfeitamente
natural que isso aconteça. Se o fizer o cão poderá adquirir comportamentos de
coprofagia (comer as próprias fezes) para fazer “desaparecer a prova do crime”
que, ele sabe, vai provocar o castigo. Falaremos com mais pormenor deste
problema no próximo artigo.
Agora que
o leitor conhece a fundo o funcionamento do aparelho digestivo e os nutrientes
que maioritariamente constituem a dieta do cão, estará apto a compreender
melhor certas patologias digestivas ou outras que derivem delas.
Não
esquecer: A melhor alimentação que pode dar ao seu cão é uma ração equilibrada,
própria para o seu peso e adequada à sua idade e estado fisiológico.